Por Que É Seguro Voar?

Muitos tem medo de voar, mas realmente precisam temer? Entenda porque voar é tão seguro.

Como toda atividade humana, a aviação não para de evoluir. Sempre pensando à frente e utilizando tecnologias de ponta, a indústria aeronáutica é um setor em constante atualização. Com isso, voar atingiu um nível de segurança maior do que atividades corriqueiras, como ir à padaria ou até mesmo acidentes domésticos. Ainda assim, muitas pessoas temem ao embarcar em uma aeronave, mas a boa notícia é que neste post o medo será vencido por seu predador, o conhecimento, explorando alguns fatores que contribuem para o elevado nível de segurança da aviação.


Leis Naturais

Primeiramente, é necessário entender o básico. Já se perguntou como um avião voa? O que mantém centenas de toneladas no ar com este nível de segurança ímpar? Parece um desafio às leis naturais mas, na verdade, é justamente o aproveitamento delas que nos permite explorar o mundo pelos ares.

Resumidamente, são as asas que possibilitam ao avião manter-se no ar. Devido ao seu formato aerodinâmico, elas geram uma força chamada sustentação. Em uma asa básica, a parte de cima (extradorso) é mais arredondada e a parte inferior (intradorso) é mais achatada (o formato final pode variar conforme o tipo de avião, possibilitando voos mais rápidos ou lentos). Essa diferença de formato gera uma pressão menor no extradorso, e a força resultante é uma "sucção" para cima, a sustentação.


Imagem: Eduardo Ulyssea


Para que se obtenha a sustentação, é necessária uma velocidade na qual essa diferença de pressão ocorra e, para obter velocidade, é preciso que o avião seja empurrado para frente, cabendo aos motores gerar a tração para tal, igual ao carro. Em oposição à essas forças, há o peso e o arrasto (resistência do ar), como ocorre com qualquer corpo que se desloque na atmosfera.



Imagem: Eduardo Ulyssea


Na imagem acima, se todas as forças estão equilibradas, significa que o avião está voando nivelado e em velocidade constante. Logo, quando o avião está subindo, a sustentação é maior que o peso e, quando está descendo, é o oposto. Ao acelerar, a tração vence o arrasto e, ao desacelerar, o arrasto é maior. Note que com um carro acontece exatamente igual, ele apenas não se movimenta para cima e para baixo por meios próprios, como faz o avião.

De posse destas informações, fica mais fácil entender que alguns problemas ocorridos com o avião não resultarão obrigatoriamente em um acidente, mas apenas em uma situação diferente de voo, porém com a segurança garantida. Se um avião bimotor tem falha em um dos motores, por exemplo, o outro motor é capaz de suprir a tração necessária para manter a velocidade de voo. E se os dois motores pararem? Neste raríssimo cenário, o pouso forçado é inevitável, pois não há mais como manter a altitude (sem perder velocidade), uma vez que não se tem mais tração, porém, não significa "despencar" como um ferro de passar roupa, pois as asas estão gerando sustentação, e ela apenas será menor que o peso, fazendo o avião descer planando, com total controle dos pilotos.


Altitude É Segurança

Este conceito pode até soar contraditório por causa da cultura popular criada ao longo dos anos, mas basta imaginar um paraquedista saltando de um prédio baixo: não há tempo para abrir o equipamento e pousar em segurança, pois o chão chega rápido, ao contrário de um salto a partir de uma aeronave à 10.000 pés (3 km), onde se tem tempo de abrir o paraquedas, se este falhar ainda acionar o reserva e prosseguir em segurança até o solo. Se um simples paraquedas demanda tempo, quem dirá uma máquina de 70 toneladas voando a mais de 300 km/h. Tempo é essencial e diretamente proporcional à altitude. Se todos os motores param à 30.000 pés de altitude, há tempo suficiente até para conseguir reacendê-los, conforme a pane ocorrida, ou então chegar à um aeroporto distante 200 km, caso não haja sucesso em religar os motores. Considerando a elevação do aeroporto como nível do mar, tem-se aproximadamente 20 minutos de voo. Porém, se a parada total dos motores ocorre à 1.000 pés (300 metros) do chão, são segundos de voo, demandando ações imediatas para controlar a aeronave que descerá imediatamente.


Em 15 de janeiro de 2009, o Cmte. Sullenberger e o Cop. Skiles perderam potência em ambos os motores de seu Airbus A320 ao colidirem com uma revoada de gansos-do-canadá, logo após a decolagem do aeroporto La Guardia, em Nova York. A aeronave estava a 3.200 pés de altitude (aproximadamente 4 minutos de planeio até o chão). Em uma coordenação de cabine exemplar, eles conseguiram realizar os checklists, inclusive a tentativa - sem sucesso - de religar os motores, e optaram por uma amerrissagem no Rio Hudson, dada a urgência da situação, o que resultou em um procedimento perfeito com todos os 155 ocupantes à salvo e o avião inteiro suficiente para compor o acervo de um museu aeronáutico. Saiba mais sobre este acidente clicando aqui.


Treinamento e Procedimentos Recorrentes

Os pilotos de linha aérea precisam estar habilitados para a aeronave específica na qual voam. Esta habilitação tem validade anual e os profissionais passam por treinamentos periódicos em simulador de voo para revalidá-la, pois lá é possível realizar praticamente todas as manobras e simulações de emergências. Com o intuito de que os pilotos estejam preparados para o pior cenário, os treinamentos em simulador de pane de motor (falhas, danos estruturais e fogo), são feitos com o avião deixando o solo, o momento mais crítico possível, pois há uma perda de 50% de tração (aviões bimotores) no momento em que mais se precisa dela. Atualmente as aeronaves possuem sistemas que auxiliam em todo esse gerenciamento, permitindo aos pilotos focar em "voar o avião", como se diz no meio aeronáutico, que consiste em preocupar-se com a pilotagem em si no primeiro momento, para depois gerenciar a pane, já em uma altitude segura e com a aeronave estável.


No simulador também são realizados treinamentos de despressurização, falhas de sistemas e até incapacitação de tripulante, onde um dos pilotos opera sozinho a aeronave até o solo. Somado ao simulador, há também um currículo de solo (aulas teóricas) que aborda meteorologia, voo por instrumentos e sistemas da aeronave. Portanto, no mínimo uma vez ao ano, os pilotos repassam as situações de emergência que podem enfrentar no dia a dia, auxiliando a rápida tomada de decisão em uma situação de emergência.


Além dos treinamentos recorrentes, antes de cada voo a tripulação - pilotos e comissários - reúnem-se para um briefing, que é uma conversa sobre o voo que farão, com o intuito de formar a equipe que conduzirá aquele voo (ou a sequência de dias e voos). No briefing são abordados temas como estado de saúde / psicológico de cada tripulante, coordenação entre cabine de passageiros e cockpit, tempo previsto de voo, condições meteorológicas previstas em rota, revisão de algum procedimento e outros assuntos que se julgar necessário pelos membros da equipe ou mandatórios pela companhia.


Já na aeronave, tanto pilotos quanto comissários realizam cheques de equipamentos no avião. Os comissários verificam os equipamentos da cabine de passageiros, enquanto os pilotos concentram-se na preparação do avião para o voo, consultando a situação da técnica da aeronave, realizando testes de sistemas, inserção de dados nos computadores e a inspeção visual na parte externa da aeronave, para buscar danos ou irregularidades. Todas estas verificações sem esquecimentos somente são possíveis por meio de checkists, que são listas de verificação do que deve ser feito até aquele momento do voo. Após a preparação da aeronave, o piloto que fará o voo inicia o seu briefing, uma explicação detalhada de todo o processo de decolagem, desde o acionamento dos motores até o término da subida. Neste briefing técnico, são revisados todos os dados inseridos, a situação técnica da aeronave, a rota de taxi até a pista de decolagem, o procedimento de subida, as rotas a serem voadas, a meteorologia e os procedimentos de emergência. Este processo é feito também antes de iniciar a descida para pouso, repassando todos os procedimentos para o pouso.


Cultura de Segurança

O Conceito mais atual de Segurança de Voo preconiza que toda a organização deve estar comprometida com a segurança das operações, e não apenas os tripulantes. Cada setor de uma empresa aérea e seus prestadores de serviço possui um compromisso com a segurança. Entende-se que uma simples decisão da alta gestão da empresa, por exemplo, poderá resultar em um acidente, talvez anos mais tarde. Além das empresas aéreas, as Empresas de Serviços Auxiliares de Transporte Aéreo - ESATA* - e os aeroportos também fazem parte do chamado Sistema de Gerenciamento de Segurança Operaicional - SGSO, que tem por objetivo deixar o risco das operações em um nível aceitável (que não gere acidentes). Por meio de um sistema bem implementado, espera-se que todos os envolvidos com a operação de aeronaves possuam uma cultura de segurança bem enraizada, tornando toda a aviação coordenada e segura.


*empresa que presta serviços auxiliares ao transporte aéreo, como Comissaria (alimentação à bordo), abastecimento de combustível, carregamento de bagagens e demais serviços.


Os Números Não Mentem

Analisando as estatísticas de acidentes aeronáuticos, os números são impressionantes. Em 2019 por exemplo, ocorreram 142 acidentes aeronáuticos no Brasil, com 58 mortes, enquanto no trânsito, 40.721 pessoas perderam suas vidas no mesmo período. Os acidentes aeronáuticos de 2019 ocorreram com aeronaves particulares, de instrução, militares e de táxi aéreo, e desde 2011 não há acidentes fatais com aeronaves comerciais no Brasil. Mas por que existe essa cultura tão equivocada de que o avião não é seguro, enquanto milhares de vidas são perdidas em automóveis? São dois grandes fatores: a falta de informação e o sensacionalismo.


O ser humano tem medo do desconhecido. Como a aviação é algo relativamente novo, a grande maioria das pessoas não conhece seus princípios básicos e procedimentos de segurança. Por pura falta de informação, as pessoas temem voar, pois se soubessem que estão muito mais seguras em um avião do que no seu carro até o aeroporto, certamente não teriam medo. E teriam certeza dessa segurança se tivessem a informação de como a aviação funciona, como são seus processos. Em tempos de Google, qualquer medo pode ser pelo menos reduzido por meio do conhecimento.


Dia 11 de setembro de 2001. Você provavelmente lembra o que estava fazendo no momento em que soube do atentado terrorista ao Word Trade Center, em Nova York, quando 2.996 pessoas morreram covardemente. E do dia 26 de dezembro de 2004, você lembra? Nesse dia, mais de 230 mil pessoas perderam suas vidas, em um Tsunami na Indonésia. A aviação choca, a tragédia aeronáutica "vende" mais que qualquer outra, e a mídia sabe disso. Não se vê um plantão urgente na TV para noticiar um ônibus que acidentou-se, mas certamente a programação será interrompida para cobrir um acidente aeronáutico. Por conta deste sensacionalismo, as pessoas passaram a acreditar que voar é perigoso.


Como pode-se notar, voar é o meio de transporte de grande capacidade mais seguro do mundo não por acaso, mas por muita disciplina e uma busca constante pela segurança. No meio aeronáutico a segurança sempre deve vir em primeiro lugar. Não há espaço para jeitos, gambiarras ou procedimentos feitos de qualquer jeito, pois agindo assim, algum dia o acidente acontecerá, mas será tarde demais.


"Digamos que se uma pessoa voasse todos os dias, experimentaria um acidente catastrófico em algum momento dentro dos próximos 2,7 mil anos".

Perry Flint

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